terça-feira, 11 de agosto de 2009

Reflexos



Sabe bem estar só num comboio cheio de gente, dá asas ao pensamento e o sonho faz questão de o acompanhar...



Ocupando um pequeno e insignificante lugar na primeira de cinco carruagens observo o mundo lá fora e confronto-o com o mundo cá de dentro.


Verdes árvores; douradas searas dançando com o vento; celeste é a cor do céu e como para o completar pequenas e claras nuvens esfumadas com o simples auxilio de um gigante esfuminho. Encontro ainda simples casas caiadas de branco com pequenos traços de cores primárias e à sua porta vivem rubras flores disputando o lugar da mais bonita destas bandas.
Ali, um riacho. Peça fulcral neste belo quadro.
Enquanto nos aproximamos começo a reparar na forma como o comboio alegremente se envolve na natureza e nela se espelha.

Através deste espelho de água dou conta de que o comboio vai cheio. Cheio não só de pessoas com uma aparência vazia como de pessoas cheias de vida, arte, egocentrismo, amor.
Encontro desde crianças repletas de vida por viver até velhinhos com tanta vida vivida que a consigo descodificar a cada traço cravado no rosto.
Mulheres, homens. Baixos, altos. Magros, robustos, gordos.
Tantas diferentes realidades juntas numa instantânea realidade.


Reparo especialmente na simplicidade complexa de quem observa cuidadosamente o exterior e, mais cuidadosamente ainda, o interior. Reparo nesta rapariga que embora traga os phones nos ouvidos não cria impedimentos à atenção, à presença. Embora pensativa parece estar a questionar mais a vida de cada um dos passageiros do que a sua.
(Parece, quando fui mais perto, mais fundo entendi que ao questionar a vida de cada um está mais que tudo a rever em cada personagem pequenas e grandes parcelas de ela própria).
Observa e vai a medo tirando cautelosas notas num pequeno caderno.

Parece-me uma rapariga de contrastes: tanto está imóvel de olhar sereno a contemplar o que a rodeia como, repentinamente, começa a cantarolar, a dançar e como gesto de magia faz da lapiseira baqueta e da mesa bateria.
Comprovo esse contraste na forma como está vestida. Black&White. All Star pretos com atacadores brancos; calças quase pretas; top de fundo branco com grandes pretas letras gritando "IGNORE GOSSIP" e no centro uma gasta fotografia a preto e branco e, para o frio, acompanha-a um simples casaco de algodão negro. Quanto à bijutaria está na base dos brancos, pretos e prateados.
Mas agora que consigo contemplar de mais perto o seu rosto só vejo cor e mais cor a evaporar-se pelos quase invisíveis poros da sua extravagante pele brilhante.

Tem vida. Tem gosto em afirmar a sua singularidade perante o Mundo. E afirma. Nem que seja relembrando os anos 20 com uns wayfarers de padrão tigresa. Tem gosto em ser ímpar, singular, única. Tem gosto em ser ela própria, sem reservas, sem vergonhas.
Porque o seu olhar transparece a confiança que sente ao se sentir bem. Certamente sente-se bela. E é-o ao seu jeito muito próprio.
Toda ela é arte - desde o contrastante all star até à ponta do chapéu.

Não conhecendo o seu trabalho não a posso assumir como artista mas ela é sem dúvida uma apaixonada pela arte! Noto isso na forma como olha cada objecto, no jeito embaraçado que faz ao morder o lábio inferior, no dançar dos seus passos, na melodia dos seus gestos.
Encaro-a como uma autêntica diletante que ama a arte, que a compreende e que a ela se entrega com toda a dedicação e gosto. Sem dúvida que é uma apaixonada por tudo o que há de mais precioso na vida e na fantasia. Para ela basta amar algo que esse algo se torna obrigatoriamente em objecto da sua arte. Assim não só ama o que cria como também cria o que ama.




Continuo a olhar o reflexo da carruagem nas correntes do riacho que agora encontrou o Tejo.



1 comentário:

  1. Gostei muito deste texto. Parabéns pela criatividade. Escreve mais textos semelhantes, onde possas revelar a tua alta sensibilidade fotográfica das pessoas e das coisas.

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